Archive for Março 2012

a coisa que eu mais gosto

Esta semana um amigo disse-me uma coisa bonita. Não de mim, disse-mo apenas a mim porque calhou. Disse-o de uma coisa trivial, mas soou-me bonito. Se fosse uma canção seria uma canção indie (a palavra mais abrangente do meu vocabulário).


Dizia ele (online)


Estrelei um ovo.
Ovos estrelados devem ser a coisa que eu mais gosto, há mais tempo.
Gosto de ovos estrelados desde sempre.


E fui ver isto (click). Não tem nada a ver com o amigo, nem com os ovos, nem com o indie. Mas gostei.



detalhes laranja


gosto de detalhes, são reveladores. (click)

Levo a bicicleta


É costume dizer-se: "Parabéns. Leva a bicicleta", de uma forma depreciativa. Como se ganhar uma bicicleta não fosse uma coisa boa.

Talvez a expressão tenha sido inventada por um menino rico, cuja garagem estava cheia de bicicletas e que sonhava ter uma avioneta (máquina prometida pelo pai quando ele fizesse 18 anos). Como os tempos são de crise, as indústrias do pai faliram e a criatura ficou sem a avioneta e vive, até hoje, sozinho e pobre numa garagem cheia de bicicletas. Centenas. Por isso, sempre que perde uma disputa retórica ou um jogo sem prémio diz, ressabiado: "Parabéns, leva a bicicleta". E as pessoas escolhem uma delas e levam-na para casa.

A primeira bicicleta que tive foi na primária e servia para andar aos círculos, numa rua sem carros ao pé de minha casa. Era uma BMX vermelha e um dia foi-me roubada. Foi o meu primeiro desgosto de amor. Vieram mais alguns depois deste, mas este foi o maior. Não me levava a lado nenhum, mas fazia-me viajar.

Quase todas as semanas recebo bicicletas virtuais como prenda. Hoje recebi esta (click). E gostei. Mas depois fui à loja onde ma escolheram e troquei-a por esta azul (click), que combina com o meu açucareiro. Mas num ímpeto consumista virtual, trouxe as duas para casa e guardei-as num quarto próprio para os objetos virtuais.

Gosto de prendas virtuais. Ocupam pouco espaço, não ganham pó e são de fácil manutenção.











O ócio.

O ócio. é um projecto livre e colaborativo sobre cultura. Propõe-se, através da partilha de experiências dos utilizadores, re-equacionar a própria forma de pensar, viver e definir a cultura.

O ócio. pretende tomar como caso de estudo a realidade vimaranense no ano de 2012, tendo como suporte a plataforma mutável disponível em www.ocio.oof.pt. Sem data para encerrar, o seu quotidiano passará por categorizar de forma mais humana, dinâmica e excitante as diferentes formas de experiência cultural.



Li Hui






                           
                                                                                 Li Hui (click)


MOSSLESS: How are you creating these wonderful photos?

LI HUI: By keeping a childish heart.

ML: You’ve taken a lot of portraits - but don’t seem to ever show faces. Why is this?
LH: I think people change their faces too fast in the real world. Sometimes there is no way of knowing their true feelings. But I just wanna know more about what’s going on inside of them and their body language tells me that. Besides, I am a really shy person, so it’s hard for me to focus on someone’s face.

ML: What kind of childhood did you have? From your quiet photos my guess is that you were a more reserved kid, but I may be way off.
LH: I spent a great part of my childhood with my grandfather. He was a very quiet person and we would rarely talk to each other. So at that time I’ve been talking to myself occasionally. To this day I have communication problems, I am afraid of people and crowds outside. Maybe that’s the reason why I am still like a child and I wanna keep it that way. So my pictures are a way of communicating with the inner child of the viewer.

ML: What’s your favourite animal?
LH: Actually I like all animals, except for snakes. For some reason they seem like monsters to me.

Labirinto burocrático

Há dias acordei, abri uma gaveta e percebi que um documento que lá tinha guardado tinha caducado. Em 2009. Por azar, em 2012 ia precisar dele. Com urgência.

Desci 2765 escadas. Apanhei um metro, li 10 páginas do livro que ando a ler e fui ao sítio onde tratei deste documento há una 10 anos. Já não era ali. (my mistake, devia ter-me informado) Disseram-me que ligasse para um número de telefone, onde me indicariam: dia, hora e local para comparecer e tratar de tudo. Fácil, que bom!

Subi 2764 (saltei uma) escadas. Meti-me no metro, ouvi um álbum inteiro de uma banda que me tinham passado e liguei para o tal número. Para o tipo de “coisa” que ia fazer mandaram-me a um sítio (do outro lado da cidade), à secção de informações. Assim foi.

Um dia de tarde, tranquilamente, apanhei um autocarro e aproveitei os momentos, de limbo, no transporte: arrumei a minha caótica carteira, enquanto voltei a ouvir o mesmo álbum de há uns dias atrás (é daqueles que ainda não sei muito bem se gosto e preciso de ouvir, pelo menos, 5 vezes), fiz uma lista de supermercado e roí duas unhas. Uma delas até sangrar. Cheguei ao sítio, onde estavam mais 872630 estrangeiros e expliquei à entrada ao que vinha: informações, para renovação de “a coisa”. O senhor da entrada, que pela cara que trazia posta me parecia farto do seu trabalho, explicou-me que, ali, informações só durante as manhãs.

(1,2,3,4... respirar fundo e vá lá, não custa nada... isso: mostrar os dentes e colocar a boca em U. Isso mesmo, um sorriso e verbalizar em voz alta: - “Obrigadaaaaaaaa”)

 Apanhei um autocarro de regresso e, com o rabo entre as pernas, voltei a roer 3 unhas (as 3 até sangrarem), ouvi só uma música do mesmo álbum, que já me estava a irritar (afinal não gosto daquilo). Fiz uma lista mental de todas as pessoas que odeio no mundo. Fantasiei como espancar uma delas, enquanto ela, sem dentes me pedia clemência, e fui à manicure, para equilibrar os xacras shackras shakras.

Voltei ao local, dias depois. De manhã, como me disseram. Meti-me no autocarro e resignei-me a ir os 45 minutos a rezar, para resolver a merda da situação. Cheguei lá, estava 1 grau ao sol.

 “- Para informação? Naquela tenda”. (de circo, aberta, onde estão mais 200 estrangeiros como eu, em bancos corridos, à espera de serem chamados para entrar no edifício, onde serão atendidos, depois de esperar em mais uma bicha – sim bicha. BICHABICHABICHA). Mais de uma hora de espera, com uma tentativa de me passarem à frente na fila (bitch), mas a esperança de resolver os meus problemas. Fui atendida – 1 hora e 23 minutos depois de lá chegar - e explicaram-me que para a minha questão não era ali. Tinha que ligar para outro número (que entretanto tinha mudado, mas o anormal anterior que me informou mal nao devia saber) ou ir à sua página da net. Aqui dar-me-iam um dia, hora e local. Onde é que eu já ouvi isto?

- O QUÊ? – é o que eu imagino que o meu olhar disse, aos berros, enquanto as minhas mãos seguravam no colarinho da funcionária.

(1,2,3,4... respirar fundo e vá lá, não custa nada... isso: desta vez não é preciso sorrir, mas vá esforça-te diz lá... vá diz...)

- Obrigadaaa.

Apanhei o autocarro. Tentei conter as lágrimas, enquanto mentalmente voltei a espancar uma pessoa que odeio. Desta vez estava inanimada, no chão, enquanto eu a chutava, com botas de biqueira de aço... e picos de metal.. enferrujados... infectados com ébola e... 

Meti-me no site para marcar “a coisa”, mas de repente o PC deu-me uma série de letras para introduzir num espaço em branco. Dizia que isto servia para provar que “eu não era uma máquina”. Hesitei. Um PC queria que eu desse provas que não era uma máquina. Irónico. No mínimo. Com alguma dificuldade consegui mostrar que sou um ser humano, com sentimentos e tudo. Aliás, nesta fase já transbordava sentimentos. E lá consegui uma marcação para tratar de “a coisa”: 1 mês depois.

Não sorri. Não disse obrigada. Era só uma máquina como as que encontrei anteriormente, mas de plástico. A vida seguiu normalmente.

E lembrei-me de quando li “O Processo” e da minha inocência, ao pensar, que era uma história surreal. Espanquei o Kafka mentalmente. A minha mente, nesta fase, tinha-se transformado num bairro muito perigoso para se passear.

Aquando da escrita deste texto, já passou o tal mês. E mais meses depois desse. À “coisa” juntou-se “coisa 2”, “coisa 3” e “coisa 4”, porque uma “coisa”, nunca vem só. Todas as “coisas” envolveram uma série de peripécias com as quais tenho massacrado quem se senta comigo na mesa do café, ou se aproxima num raio de 20 metros. Ou ainda não me baniu virtualmente. Mas, porque o Santinho das Burocracias não dorme, tudo se resolveu pelo melhor, e à data de hoje sou uma pessoa livre de qualquer processo. E vivo feliz. Qual Teseu.