Archive for Abril 2012

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composição sobre chapéus


Não consigo resistir a uma montra com chapéus. Não sou muito dada à utilização de acessórios, porque me pesam. Literalmente. Sinto alguns deles - como os brincos, colares e pulseiras -, como um corpo estranho ao dependuro na minha carne. Como um cão ou um gato, quando se lhe coloca uma mola da roupa na orelha. No início incomoda-os muito, eventualmente acabam por se habituar sem deixar, no entanto, de ir lá com a pata de vez em quando. Esta é a minha relação com os acessórios, no geral. Pesam-me.

Os chapéus, apesar de acessórios, são outro mundo. Primeiro porque não são de pendurar, são de “pousar” e só esta ideia torna-os mais confortáveis, suaves e extensivos do limite da cabeça. Se nos pés temos o chão, de onde não podemos passar, na cabeça não temos nada, ou temos tudo o resto. O resto do mundo.


  
Gosto de chapéus no inverno, porque acho que perco calor pela cabeça. Como as janelas que têm frinchas. E servem-me de rolha. Gosto de chapéus no verão, porque o sol aquece-me a moleirinha e os pensamentos e prefiro andar com pensamentos de temperatura média, para não queimar os miolos. Tenho mais dificuldades com os chapéus nas meias estações, porque não tenho frio, nem calor. Mas uso-os na mesma.

Como dizia antes de começar a declarar o meu amor aos chapéus, não consigo resistir a uma montra com chapéus, mesmo que não goste de nenhum deles.


Há dias passei por uma chapelaria que se chama “Atelier Carmen Hernán, e como se uma montra de chapéus não fosse já por si própria intimidante suficiente, ainda tive de tocar à porta para bisbilhotar o que lá havia dentro e experimentar alguns modelos.


Chapéus há muitos, mas poucos os que nos assentam bem por isso é importante, sempre que se vir um chapéu que assenta, não perder a oportunidade de o levar para casa. Dificilmente haverá outra oportunidade igual e passaremos o resto na vida a pensar naquele chapéu, que deixámos ficar na prateleira. “Antes arrepender-me do chapéu que comprei, do que daquele que deixei”, quem dizia isto? Ninguém. Acabei de inventar, mas podem-me citar sempre que vier a propósito.

A porta foi-me aberta por uma mulher baixinha, morena, com um turbante/chapéu, um fato de saia e casaco que podia ser clássico, mas não era, e com os lábios pintados de vermelho. Era a dona da loja. A Carmen. Não era intimidante, como a sua loja de chapéus, e tinha uma voz aguda. Se falasse francês e se chamasse Marie, podia ser uma personagem de um filme do Jeunet, que escondia nas traseiras da loja uma máquina de manivela de fazer sonhos que colocava, à socapa, nos chapéus que vendia.

Como estávamos em Madrid, Carmen seria mais credível como personagem de um dos filmes do Álmodovar, que tinha fantasias sexuais com o Cristiano Ronaldo, em cima de montanhas de chapéus de vários formatos e cores e materiais.




Depois que experimentar o primeiro acessório, percebi que metade da loja era o atelier, onde esta criatura produzia os chapéus. À mostra tinha os materiais, os moldes, as linhas, a máquina e aquela loja ganhou ainda mais encanto. Nunca tinha visto ninguém a fazer chapéus.


O primeiro chapéu que experimentei era bonito e ficava-me bem, mas não o comprei, porque não tinha dinheiro para ele. Não porque fosse caro.

 Apetecia-me ficar a falar com a Carmen, mas tinha um avião à espera que, ironicamente, não esperaria. Disse-lhe que gostava do seu trabalho e pedi-lhe para tirar umas fotografias. Expliquei-lhe que iriam parar ao meu blogue, mas que não se entusiasmasse, porque só era lido por três pessoas (e uma era da minha família). Percebeu isto mal saquei do telemóvel para tirar umas fotos amadoras e falou das maravilhas da tecnologia. Depois arrependi-me do meu comentário, com medo que isso a desiludisse e me expulsasse da loja. Expliquei-lhe que eram poucos os leitores, mas de grande qualidade. Como os chapéus dela.  Pareceu-me que era indiferente à “tiragem” do meu pasquim online.

É autodidata e em 2007 fez o seu primeiro chapéu e descobriu que esse era o seu caminho. A comunicação social interessou-se pelo seu trabalho e fez o resto. Tentei tirar-lhe uma foto. Disse que preferia que fotografasse os seus chapéus. Prometi que lhe enviava um link do meu blogue que tinha um nome um pouco complicado (para um espanhol, mas omiti esta parte)

Vim-me embora a correr com medo de perder o avião e com a cabeça nos chapéus. Lembrei-me que chapéus não há assim tantos, e que se não tivesse nascido com duas mãos esquerdas (sendo eu dextra), me dedicava a fazer chapéus.

os sons dos seus dias


Um amigo abriu um blogue musical, ali ao fundo no edifício blogspot.com, onde diariamente posta os sons dos seus dias. Coincido com ele em 83% dos gostos musicais por isso passo por lá, todos os dias, antes de ir beber café. Às vezes não resisto e roubo coisas.


É fácil dar com o espaço cibernáutico dele. Basta seguir as indicações ------> (click) e no fim da rua vê-se um edifício branco, com post pendurados,alinhadamente.

Esta música tirou-me do sério (click). Se eu fosse uma música, seria esta.


“Os locutores da Rádio Pirenaica garantiam que o regime franquista estava nas últimas. Os folhetos que lia tão misteriosamente Ramón Tovar garantiam que o imperialismo e o fascismo eram tigres de papel. Nem ele arranjava trabalho, nem eu tinha perspectivas de vir a ser jornalista. No fundo, tínhamos a nossa terra, onde ao menos nunca nos faltaria um prato quente e um bom braseiro de azinho para nos proteger do frio, mas nenhum dos dois podia suportar a indignidade de ser o primeiro a confessá-lo. Eu escrevia quase diariamente àquela que é hoje minha mulher. Algumas dessas cartas ainda andam pelas gavetas da nossa casa e, quando me atrevo a lê-las, dá-me um acesso insuportável de vergonha, de piedade e de ridículo. Tendemos instintivamente a favorecer-nos nos retratos do passado traçados pela memória. Depois descobrimos numa carta de há vinte anos o que pensávamos e sentíamos de facto então e vemo-nos como éramos, não ingénuos, mas simplistas, fanáticos em vez de apaixonados e rebeldes, pretensiosos, ignorantes, bastante idiotas, mas sobretudo distantes, tão inacessíveis nessa distância como a fotografia de um desconhecido, usando palavras que hoje juraríamos nunca ter dito nem escrito.”

O Dono do Segredo, de Antonio Muñoz Molina

B de











Ainda ontem estava aqui a fazer um scroll ao meu pasquim cibernáutico e tinha decidido, a pés juntos, não voltar a falar das ditas cujas (começa com B e acaba em cleta). Pelo menos, até tirar a minha própria de casa e dar uma pedaladelas por esse mundo real fora. Porque é para isso que elas servem e não apenas para as apreciar na net.


Estava a decisão tomada - respetivas promessas feitas e velinhas acesas -, quando uma criaturinha que recém adquiriu uma - e ainda está naquela fase em que são só rosas, em que vive a pensar que vai sair com ela todos os dias, até que a morte as separe e que não sabe que acabará a cobiçar ditas cujas alheias na net - me mostrou isto (click). Emocionada. Achei irresistível pastilhar partilhar, para quem possa interessar e estiver pela capital (a política).


A marca chama-se BASHÔ Cycling Club e sobre si diz:

"É uma oficina artesanal que constrói bagagem para bicicletas.

Descrição


A nossa missão é aumentar o conforto e a eficiência da bicicleta como meio de transporte diário ou em viagens. Inspirámo-nos no espírito dos diários de viagem do poeta japonês; ver, ouvir e sentir os sinais do caminho são a essência da viagem. Em nosso entender a bicicleta é o meio de transporte que melhor serve a arte de viajar, permite saborear com prazer o caminho.

O primeiro acessório que construímos é o útil saco para ferramentas.
Inspirado nos tradicionais tool rolls, pensamos que deve ser um indispensável companheiro para qualquer deslocação. Estojo em tecido com oito compartimentos para as ferramentas básicas, câmara-de-ar e uma pequena bomba de ar. Pode ser preso á parte inferior do selim, ao quadro ou simplesmente transporta-la no interior de uma mala. 


Yé-Yé


Convite aos internautas: 

O coletivo Ó da casa vai promover, em Guimarães, um evento dedicado à música e, em especial, ao Rock e à contracultura dos anos 50, 60 e 70. Este evento decorrerá ao longo do sábado de 5 de maio de 2012, e será uma celebração desse período em Portugal através da música, envolvendo a comunidade e a multidisciplinaridade artística. Haverá cinema, teatro e animação do comércio, bem como um concerto musical, terminando com uma festa ao som do Yé Yé. O programa definitivo sairá brevemente.(click).


Ando há três (3) dias há procura de dois (2) livros, que um (1) amigo me recomendou entusiasticamente. Na minha caça ao livro, por aqui e no estrangeiro, em alfarrabistas e livrarias, dei de caras com este pequeno livro que me atraiu pelo nome (click). Uma vez li um livro que se chamava o "Nariz", era do Gogol. Só o li porque me atraiu o nome.

Abri-o - a este novo que descobri - e dei de caras com esta citação, que me pareceu fazer sentido:


"Sempre que vejo um adulto de bicicleta, volto a confiar no futuro da raça humana." - Henry G. Wells

E depois saí da livraria (aquelas muito grandes onde também vendem outras coisas, que não apenas livros e que têm chão de alcatifa para abafar o som dos grandes espaços, com música aos berros ) e passei por uma loja de livros em segunda mão (que não conhecia) e deparei-me com este cenário. 



Entrei. claro, e voltei a não encontrar os livros, mas pensei que não há nada que me pareça mais relaxante que a ideia de ler um livro, enquanto pedalo a minha bicicleta à beira-mar. Simultaneamente.

melodia agridoce


Feist canta e a fotógrafa argentinha Irina Werning dá as fotos. (click)

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