Jirka Ernest

em democratic books: livros de fotografia para download gratuito.

comicking

“Palooka-Ville” de Seth (Gregory Gallant)
 

Seth’s stories deal with disappointment and isolation, universal themes shown through the eyes of an artist out of step with the modern world. His protagonists guide along their day-to-day lives with a thoughtful narrative, making even relatively humdrum events engaging as we see the world through their perspective. Though his work tends to evoke feelings of sadness and longing, his keen use of humour and wit help balance out the more melancholy moments, resulting in comics that are a joy to read – a calmer, quieter joy than the flashy offerings of other publishers, but a joy nonetheless!


mais universos canadianos desesperançados e cinzentos, em ironia e sentido de humor seco.

virtuosos defeitos

 registos analógicos daqui

Sempre gostei de fotografia por ser uma forma de aprisionamento do presente (e da mudança). Neste sentido uma fotografia é uma espécie de materialização de um determinado esforço mental de controlar o incontornável. É um congelamento e apropriação (imaginada) de um frame de vida (própria ou alheia).

Ultimamente ando interessada em (voltar a) experimentar a fotografia analógica. Interessa-me a surpresa do erro (próprio ou materiais defeituosos) que tenho  apreciado nos últimos trabalhos analógicos que tenho visto. A surpresa e a paciência e o imprevisível.

operação inverno # 2


bolo burguês

operação inverno # 1


o cisne branco


e por falar em cisnes e refutabilidade empírica, faz quase um ano que encontrei um cisne branco aqui e desde então não o tenho conseguido tirar da cabeça. quero um. preciso de um.

desde a fase “botão redondinho branco nas calças de bombazine pretas” e “desejo ardentemente uma determinada peça de roupa que já não se vende” entrei na fase “preciso de um cisne-branco-vaso de loiça para colocar em cima de um pano de crochet”. 

não sou distraída. sou apenas de atenção concentrada em detalhes.

agradeço contacto de quem me possa indicar onde posso adquirir um. também aceito patos. agradecida.

cisne negro


o meu local preferido para ouvir música é o carro, quando vou sozinha. é o único sítio onde canto alto e faço segundas vozes, como se não houvesse amanhã. como é uma atividade sem testemunhas, posso dizer que canto muito bem sem medo de ser contrariada (invoco a refutabilidade empírica a meu favor).

nos últimos tempos tenho levado a passear estes senhores. e esta música faz-me dor de barriga. há músicas que fazem alergia, dores de cabeça, dores musculares, enjoos, que dão energia, alegria... as minhas preferidas são as que fazem dor de barriga.

Queque




2 chávenas de farinha
1 chávena de açucar
125 gr de chocolate em pó
50 gr manteiga
2 ovos
1 chávena de leite
1 colher de chá de fermento

juntar tudo e bater até ficar homogéneo.
colocar numas formas de papel de aspeto irresistivelmente giro (tão giro, que mereçam deixar de ser queques, para serem chamados de muffins)
colocar no forno a 180º, previamente aquecidos.
deixar 20 minutos.

menos é menos


Tinha uma reunião de trabalho e a franja incomodava-me. Num ato de auto-suficiência resolvi dar um jeitinho. A tesoura estava pouco afiada e o resultado ficou irregular. Resolvi acertar. Piorou a situação. A franja restante já não era muita. Tentei só mais uma vez. Fiquei em modo prisioneiro de Auschwitz. Resolvi usar laca e gel (produtos que já não usava desde os 13 anos) e o que resultou desta utilização estaria na moda nos anos 90. Em 2011 eu era apenas uma parola saída de um campo de concentração. Lavei o cabelo e fui apanhar o metro. Esqueci-me do sucedido e interiorizei que o importante é sermos bonitos por dentro.
Antes de sair olhei-me de alto a baixo e perguntei à cara-metade se estava bem. Ele responde, sorrindo: “Sim, estás... com personalidade”. Devia ter desconfiado deste sorriso. Foi o primeiro de muitos durante o dia.
No metro comecei a notar que as pessoas me olhavam e sorriam. Um rapaz (giro) sentou-me à minha frente e sorria-me, enquanto me olhava fixamente nos olhos. Comecei a sentir-me a Miss Vilar do Pinheiro (e a preparar mentalmente o discurso de agradecimento quando ganhasse o título mundial de Miss Freguesia).
 O metro entrou num túnel escuro e vi-me refletida nas janelas e percebi. As pessoas não se riam para mim, mas de mim e o gajo que estava à minha frente (e que afinal não era assim tão giro) não me olhava nos olhos. Olhava fixamente a minha irregularequaseinexistente franja. Para remediar a situação pensei pegar no telemóvel, simular uma chamada e falar inglês (britânico) muito alto; a um inglês é desculpável qualquer coisa (como por exemplo, meias e sandálias no mesmo pé, ao mesmo tempo).
Fui à reunião e no fim lembrei-me desta passagem, de um livro que ando a ler de um autor que me faz rir (aqui):
"Naquele momento, o lado menos negativo da minha situação era o facto de não estar diante de chamas vermelhas, contendo no interior um taumaturgo reanimado de um sono de séculos por feiticeiros com intenções nada benéficas. Não sabia se fogo com propriedades sobrenaturais conseguiria queimar-me, mas não fazia questão de descobrir. Passando ao inevitável lado negativo, despertei no chão de uma divisão nada arejada, tendo à minha frente três dos referidos feiticeiros, olhando-me com desprezo. E um deles apontava-me uma arma. Porque até os lados negativos podiam ter lados negativos."

in "O fim chega numa manhã de nevoeiro", de Renato Carreira (mais autor aqui)




A importância do desastre da minha franja só podia ser anulado por três situações: se nesse mesmo dia me anunciassem que tinha uma doença terminal, se me inscrevesse num workshop de escrita criativa ou se me destacassem para trabalhar no Pólo Sul – lá teria de andar de gorro.