a coisa que eu mais gosto

Esta semana um amigo disse-me uma coisa bonita. Não de mim, disse-mo apenas a mim porque calhou. Disse-o de uma coisa trivial, mas soou-me bonito. Se fosse uma canção seria uma canção indie (a palavra mais abrangente do meu vocabulário).


Dizia ele (online)


Estrelei um ovo.
Ovos estrelados devem ser a coisa que eu mais gosto, há mais tempo.
Gosto de ovos estrelados desde sempre.


E fui ver isto (click). Não tem nada a ver com o amigo, nem com os ovos, nem com o indie. Mas gostei.



detalhes laranja


gosto de detalhes, são reveladores. (click)

Levo a bicicleta


É costume dizer-se: "Parabéns. Leva a bicicleta", de uma forma depreciativa. Como se ganhar uma bicicleta não fosse uma coisa boa.

Talvez a expressão tenha sido inventada por um menino rico, cuja garagem estava cheia de bicicletas e que sonhava ter uma avioneta (máquina prometida pelo pai quando ele fizesse 18 anos). Como os tempos são de crise, as indústrias do pai faliram e a criatura ficou sem a avioneta e vive, até hoje, sozinho e pobre numa garagem cheia de bicicletas. Centenas. Por isso, sempre que perde uma disputa retórica ou um jogo sem prémio diz, ressabiado: "Parabéns, leva a bicicleta". E as pessoas escolhem uma delas e levam-na para casa.

A primeira bicicleta que tive foi na primária e servia para andar aos círculos, numa rua sem carros ao pé de minha casa. Era uma BMX vermelha e um dia foi-me roubada. Foi o meu primeiro desgosto de amor. Vieram mais alguns depois deste, mas este foi o maior. Não me levava a lado nenhum, mas fazia-me viajar.

Quase todas as semanas recebo bicicletas virtuais como prenda. Hoje recebi esta (click). E gostei. Mas depois fui à loja onde ma escolheram e troquei-a por esta azul (click), que combina com o meu açucareiro. Mas num ímpeto consumista virtual, trouxe as duas para casa e guardei-as num quarto próprio para os objetos virtuais.

Gosto de prendas virtuais. Ocupam pouco espaço, não ganham pó e são de fácil manutenção.











O ócio.

O ócio. é um projecto livre e colaborativo sobre cultura. Propõe-se, através da partilha de experiências dos utilizadores, re-equacionar a própria forma de pensar, viver e definir a cultura.

O ócio. pretende tomar como caso de estudo a realidade vimaranense no ano de 2012, tendo como suporte a plataforma mutável disponível em www.ocio.oof.pt. Sem data para encerrar, o seu quotidiano passará por categorizar de forma mais humana, dinâmica e excitante as diferentes formas de experiência cultural.



Li Hui






                           
                                                                                 Li Hui (click)


MOSSLESS: How are you creating these wonderful photos?

LI HUI: By keeping a childish heart.

ML: You’ve taken a lot of portraits - but don’t seem to ever show faces. Why is this?
LH: I think people change their faces too fast in the real world. Sometimes there is no way of knowing their true feelings. But I just wanna know more about what’s going on inside of them and their body language tells me that. Besides, I am a really shy person, so it’s hard for me to focus on someone’s face.

ML: What kind of childhood did you have? From your quiet photos my guess is that you were a more reserved kid, but I may be way off.
LH: I spent a great part of my childhood with my grandfather. He was a very quiet person and we would rarely talk to each other. So at that time I’ve been talking to myself occasionally. To this day I have communication problems, I am afraid of people and crowds outside. Maybe that’s the reason why I am still like a child and I wanna keep it that way. So my pictures are a way of communicating with the inner child of the viewer.

ML: What’s your favourite animal?
LH: Actually I like all animals, except for snakes. For some reason they seem like monsters to me.

Labirinto burocrático

Há dias acordei, abri uma gaveta e percebi que um documento que lá tinha guardado tinha caducado. Em 2009. Por azar, em 2012 ia precisar dele. Com urgência.

Desci 2765 escadas. Apanhei um metro, li 10 páginas do livro que ando a ler e fui ao sítio onde tratei deste documento há una 10 anos. Já não era ali. (my mistake, devia ter-me informado) Disseram-me que ligasse para um número de telefone, onde me indicariam: dia, hora e local para comparecer e tratar de tudo. Fácil, que bom!

Subi 2764 (saltei uma) escadas. Meti-me no metro, ouvi um álbum inteiro de uma banda que me tinham passado e liguei para o tal número. Para o tipo de “coisa” que ia fazer mandaram-me a um sítio (do outro lado da cidade), à secção de informações. Assim foi.

Um dia de tarde, tranquilamente, apanhei um autocarro e aproveitei os momentos, de limbo, no transporte: arrumei a minha caótica carteira, enquanto voltei a ouvir o mesmo álbum de há uns dias atrás (é daqueles que ainda não sei muito bem se gosto e preciso de ouvir, pelo menos, 5 vezes), fiz uma lista de supermercado e roí duas unhas. Uma delas até sangrar. Cheguei ao sítio, onde estavam mais 872630 estrangeiros e expliquei à entrada ao que vinha: informações, para renovação de “a coisa”. O senhor da entrada, que pela cara que trazia posta me parecia farto do seu trabalho, explicou-me que, ali, informações só durante as manhãs.

(1,2,3,4... respirar fundo e vá lá, não custa nada... isso: mostrar os dentes e colocar a boca em U. Isso mesmo, um sorriso e verbalizar em voz alta: - “Obrigadaaaaaaaa”)

 Apanhei um autocarro de regresso e, com o rabo entre as pernas, voltei a roer 3 unhas (as 3 até sangrarem), ouvi só uma música do mesmo álbum, que já me estava a irritar (afinal não gosto daquilo). Fiz uma lista mental de todas as pessoas que odeio no mundo. Fantasiei como espancar uma delas, enquanto ela, sem dentes me pedia clemência, e fui à manicure, para equilibrar os xacras shackras shakras.

Voltei ao local, dias depois. De manhã, como me disseram. Meti-me no autocarro e resignei-me a ir os 45 minutos a rezar, para resolver a merda da situação. Cheguei lá, estava 1 grau ao sol.

 “- Para informação? Naquela tenda”. (de circo, aberta, onde estão mais 200 estrangeiros como eu, em bancos corridos, à espera de serem chamados para entrar no edifício, onde serão atendidos, depois de esperar em mais uma bicha – sim bicha. BICHABICHABICHA). Mais de uma hora de espera, com uma tentativa de me passarem à frente na fila (bitch), mas a esperança de resolver os meus problemas. Fui atendida – 1 hora e 23 minutos depois de lá chegar - e explicaram-me que para a minha questão não era ali. Tinha que ligar para outro número (que entretanto tinha mudado, mas o anormal anterior que me informou mal nao devia saber) ou ir à sua página da net. Aqui dar-me-iam um dia, hora e local. Onde é que eu já ouvi isto?

- O QUÊ? – é o que eu imagino que o meu olhar disse, aos berros, enquanto as minhas mãos seguravam no colarinho da funcionária.

(1,2,3,4... respirar fundo e vá lá, não custa nada... isso: desta vez não é preciso sorrir, mas vá esforça-te diz lá... vá diz...)

- Obrigadaaa.

Apanhei o autocarro. Tentei conter as lágrimas, enquanto mentalmente voltei a espancar uma pessoa que odeio. Desta vez estava inanimada, no chão, enquanto eu a chutava, com botas de biqueira de aço... e picos de metal.. enferrujados... infectados com ébola e... 

Meti-me no site para marcar “a coisa”, mas de repente o PC deu-me uma série de letras para introduzir num espaço em branco. Dizia que isto servia para provar que “eu não era uma máquina”. Hesitei. Um PC queria que eu desse provas que não era uma máquina. Irónico. No mínimo. Com alguma dificuldade consegui mostrar que sou um ser humano, com sentimentos e tudo. Aliás, nesta fase já transbordava sentimentos. E lá consegui uma marcação para tratar de “a coisa”: 1 mês depois.

Não sorri. Não disse obrigada. Era só uma máquina como as que encontrei anteriormente, mas de plástico. A vida seguiu normalmente.

E lembrei-me de quando li “O Processo” e da minha inocência, ao pensar, que era uma história surreal. Espanquei o Kafka mentalmente. A minha mente, nesta fase, tinha-se transformado num bairro muito perigoso para se passear.

Aquando da escrita deste texto, já passou o tal mês. E mais meses depois desse. À “coisa” juntou-se “coisa 2”, “coisa 3” e “coisa 4”, porque uma “coisa”, nunca vem só. Todas as “coisas” envolveram uma série de peripécias com as quais tenho massacrado quem se senta comigo na mesa do café, ou se aproxima num raio de 20 metros. Ou ainda não me baniu virtualmente. Mas, porque o Santinho das Burocracias não dorme, tudo se resolveu pelo melhor, e à data de hoje sou uma pessoa livre de qualquer processo. E vivo feliz. Qual Teseu.


há mais janelas que portas


dez janelas foram o ecrã de dez vídeos de dez artistas (click)

Lição número um



No seguimento de um post publicado neste blogue a 08.02.2012 (aqui), em que publicamente assumia que não gosto de poesia (tirando a do meu amigo poeta) chegaram duas dezenas centenas milhares de cartas à redação deste blogue. Principalmente de *felts - mais conhecidos por Godás (ver definição aqui) – indignados, e até violentos, por tamanha falta de sensibilidade.

Entre estas vozes que se insurgiram houve uma alma caridosa que se propôs salvar-me das chamas do inferno, enviando-me semanalmente um poema, que me educará poeticamente e me fará mudar de ideias em relação à poesia. Disse que sim, para não dizer que não, pois acredito que a tarefa é inglória. Como aquela vez em que insistiram comigo que se ouvisse Jack Johnson com atenção e estivesse atenta às letras ia gostar muito (NOT) ao que eu respondi “Está bem” sabendo que mentia com quanto dentes tenho (o que é muito, porque tenho-os quase todos de origem).

Quando o primeiro chegou (e único até à data) tremi. Entrei no tal modo poético e abri a alma. E fui gratamente surpreendida pela coisa. Apeteceu-me logo abrir uma nova sexão secção neste blogue dedicada à poesia. Diz a criatura caridosa que me enviou o poema, que este ainda é a testar o meu sentido de humor (check, ainda o conservo). Deve ser uma tática inteligente para me converter, mas sou só eu a especular, visto que piso em terreno desconhecido. Só espero não acabar em algum bar a declarar declamar poesia em voz alta, se isso acontecer conto com a colaboração dos meus amigos, para me matarem impedirem.

Já agora, para quem como eu sofre de deficiência poética e se quiser juntar a este curso rápido de “Aprenda a gostar de poesia em 20 semanas" (resultados assegurados), aqui fica o  primeiro poema.

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto

"Receita para fazer um herói", de Reinaldo Ferreira

* expressão local, de uma pequena tribo vilacondense

quiche de flores

Nem só de sabão vive o homem


Numa época do industrial, massificado, plástico, rápido, impessoal, despersonalizado e etc, vão bem-sucedendo conceitos orgânicos e biológicos e personalizados e o nome que lhes quisermos dar.

Para além dos objetos de autor que se vão encontrando aqui e ali, há os conceitos de autor(es), que repensam alguns modelos atuais. 

Lembro-me de alguns como os jardins verticais, a agricultura urbana e a cultura (deixem-me inventar um conceito) biológica.

O que é a cultura biológica?

Conceito de AgriCultura Biológica (adaptado daqui click)
A agricultura biológica é um tipo de agricultura que dispensa a utilização de todo o tipo de produtos químicos quer na fertilização, quer nos tratamentos, permitindo assim a obtenção de produtos biologicamente puros e isentos de qualquer poluição agrícola cultural. Pretende-se assim aumentar o valor nutritivo dos alimentos das ideias e simultaneamente manter um elevado grau de fertilidade do solo da imaginação e pensamento crítico.
Este tipo de agricultura é, em certa medida, um regresso ao passado pois coloca de novo a ênfase na associação entre a policultura e a criação de gado pessoas, na rotação e diversidade de culturas e na utilização de fertilizantes fertilizantes naturais tal como o estrume as ideias próprias em lugar de adubos químicos pensamentos de massa, o que favorece a vida microbiana e impede o surgimento de determinadas doenças.

Um dos exemplos recentes deste conceito biológico de cultura, e inserido já em 2011, na programação da Capital Europeia da Cultura, foi e é o Guimarães noc noc. Este movimento deixou nas mãos dos artistas a responsabilidade de mostrar o seu trabalho, tornando os lugares mais improváveis (casas particulares, garagens, ruas, esquinas, edifícios devolutos, etc) tão válidos como qualquer museu ou galeria, mas desburocratizando todo o processo de mostra. Com isso aproximou público e artistas. E juntou artistas de variadas áreas (em 2011 foram 300, por exemplo), de onde resultaram novas colaborações e novos trabalhos. Usando um paralelismo algo bastante rebuscado com a ideia de McLuhan que "o meio é a mensagem", parece que para o G noc noc, o espaço físico (galerias e museus que carimbam a qualidade dos trabalhos) deixa de ser a mensagem, transformando o artista - e a sua obra - na mensagem. Sem intermediários de colarinho branco.


Para contextualizar, convém referir que este movimento nasce e cresce num momento em que a comunidade artística e pensante local estava de costas revoltadas a um grandioso e imponente importante evento - CEC 2012 -, que se esquecia desta "cultura biológica" e se fechava em conceitos complicados e rebuscados e que ninguém (ou pelo menos eu) entende verdadeiramente. Isso e de grandes nomes. Quando na verdade tudo o que as pessoas queriam eram um raminho de manjericão plantado num vaso de barro, no parapeito da janela. E foi um sucesso.


Daqui, aqui já sou eu a atrever-me a dizer, surge uma nova artéria no direcionamento da Capital da Cultura. Não digo que seja a artéria principal, mas que se torna imprescindível (este aproximar da arte às pessoas e dos artistas ao público, fazendo com que o público deixe de ser um espetador passivo e que o artista seja menos hermético). Talvez seja uma tendência geral, e não apenas local. No seguimento deste bater às portas, nasceram projetos que seguem a "linha biológica"Ou usando as novas palavras da instituição: eu faço parte. Ou como trazem outros ao peito: eu faço parte.

Um deles é Cartografias da Memória e do Quotidiano, que por um lado documenta o processo de produção, e por outro convida o cidadão a pegar num mapa e a procurar os outdoors distribuídos pela cidade e região.

 


Mas na verdade, serve este texto para contar que recentemente conheci uma banda portuguesa, num evento que se chama Mi Casa Es Tu Casa, também no âmbito da programação CEC 2012. Passei um belo dia de casa em casa, a tentar ouvir bandas - umas conhecidas e outras menos - em salas de estar de pessoas que não conheço. 

A banda que vi chama-se Anaquim (Ana & Quim ou Anakim Skywalker?), e só para situar quem não conhece, eu diria que são uma espécie de Sérgio Godinho, de óculos de massa, na casa dos 30 e com uma pitada de crítica político-social e que se riem deles próprios (auto-humor?).

É provável que esta banda nunca me chamasse a atenção, não fosse a proximidade e o ambiente "biológico" durante o concerto.

E tive a sorte de ver o concerto numa das casas (construída nos anos 60) mais bonitas belas, onde jamais estive. A foto que se segue é de lá.


drimiri@aCasaMaisLinda








 

Thank you, Sherlock!


Situação. Alteração de endereço em várias instituições, nomeadamente no banco.
Cenário. Um banco


Eu: Bom dia. Mudei recentemente de endereço, fiz as alterações necessárias aqui no banco na altura, mas desde então deixei de receber a vossa habitual correspondência. Gostava de saber se deixaram de me enviar cartas, ou se haverá outra irregularidade qualquer.

Senhora do banco: Confirme-me o endereço novo. 
(enquanto olha para o ecrã do PC)

Eu: Rua do Blá Blá, número Blá. Blá blá.

Senhora do banco: Está correto. Está tudo ok.

Eu: Mas mandam-me correspondência, como sempre, ou deixaram de o fazer? É que deixei de a receber cartas vossas no novo endereço.

Senhora do banco: Isso não lhe consigo dizer aqui.
(olhando novamente para o PC)

Eu: Onde posso averiguar esta situação?

Senhora do banco: Na sua caixa do correio.

"It’s just that there comes a point where the facts don’t matter any more, and even though you know everything, you know nothing, because you don’t know what anything felt like. That’s the thing about stories, isn’t it? You can tell someone the facts in ten seconds, if you want to, but the facts are nothing."

Slam, de Nick Hornby (click)

sétimo céu

drimi@circuloDEbellasArtes
parece-me sempre um privilégio ter acesso a Madrid de cima. desde que lá cheguei pela primeira vez, há 51 anos atrás, sempre andei de cabeça no andar a olhar para o céu e para os telhados, perguntando e fantasiando o que se passaria nos últimos andares daqueles edifícios não tão altos, mas muito maiores que eu.

continuo a achar que lá em cima, nas últimas varandas e terraços, acontecem coisas diferentes de cá de baixo e, por isso, sempre que posso ou me deixam vou até lá cima e espero, às vezes sentada, que algo aconteça. nunca aconteceu nada, porque ainda não estive na hora e sítio certo. mas tenho quase a certeza, que quando ninguém olha, grandes coisas se passam naqueles últimos andares.

com a desculpa de uma exposição menos interessante, subi ao sétimo andar do Círculo de Bellas Artes e passei lá várias horas - de meio da tarde até ao anoitecer - em vigília. 
  
No café majestoso do rés-do-chão deste espaço - já sei que não são terraços, nem últimos andares - juntam-se grupos de, 3 ou mais, senhoras com belas fatiotas, cuidados penteados e bâton, rímel e blush, à volta de cocktails e bules de chá. Provavelmente conversando sobre o que se passa lá em cima.







 


Poesia poética de poeta


Não gosto de poesia. Quer dizer, gosto de ideias poéticas, imagens poéticas, objetos poéticos e até textos poéticos, mas poesia assim como a escrevem os poetas: com linhas curtas e estrofes e, às vezes, rimas não gosto. Não foi por falta de esforço. Não é como as anchovas e as favas, que comi uma vez e nunca mais lhes meti o dente. Não. À poesia voltei inúmeras vezes, fazendo um esforço, tentanto entrar em "modo poético": esvaziando a mente, abrindo a alma e toda a tralha poética que ajuda a gostar de poesia. Fiquei por dois poetas de quem gostei de forma moderada, ao ponto de comprar os livros (ou ofereceram-me?) e consultá-los um número limitado de vezes, que talvez se conte pelos dedos das mãos.

E depois uma fatalidade aconteceu-me. Um dos meus melhores amigos virou poeta e escreveu um livro. O destino prega-nos partidas. Já sei que tendo eu esta deficiência poética seria fácil dizer-lhe: "Desculpa, melhor amigo, mas não gosto de poesia, por isso não vou ler o teu livro". Era fácil. Mas a amizade obriga-nos a fazer coisas por amor e li o livro. E até gostei (note-se o até). Em particular de dois poemas. E depois o amigo fez um blogue (este) onde o visito quase diariamente. E quando dei por mim emocionava-me (sem lágrimas, mas com sorrisos) com o que ele escrevia. E pronto, tive de assumir que afinal gostava de poesia. Pelo menos de uma grande parte da dele.

Escreve coisas que te fazem dizer "uau", como esta:

Não caber não é mais
que uma forma deselegante
elefantina de morrer.

Na verdade, comecei por escrever este post unicamente para dizer que ele tem uma exposição de fotografias de sapatos perdidos e poesia em Tondela (Viseu). Quem passar por lá que a visite. Era para dizer só isso, mas depois... a amizade tem destas coisas. 

Antes poesia, que anchovas e favas.