virtuosos defeitos

 registos analógicos daqui

Sempre gostei de fotografia por ser uma forma de aprisionamento do presente (e da mudança). Neste sentido uma fotografia é uma espécie de materialização de um determinado esforço mental de controlar o incontornável. É um congelamento e apropriação (imaginada) de um frame de vida (própria ou alheia).

Ultimamente ando interessada em (voltar a) experimentar a fotografia analógica. Interessa-me a surpresa do erro (próprio ou materiais defeituosos) que tenho  apreciado nos últimos trabalhos analógicos que tenho visto. A surpresa e a paciência e o imprevisível.

operação inverno # 2


bolo burguês

operação inverno # 1


o cisne branco


e por falar em cisnes e refutabilidade empírica, faz quase um ano que encontrei um cisne branco aqui e desde então não o tenho conseguido tirar da cabeça. quero um. preciso de um.

desde a fase “botão redondinho branco nas calças de bombazine pretas” e “desejo ardentemente uma determinada peça de roupa que já não se vende” entrei na fase “preciso de um cisne-branco-vaso de loiça para colocar em cima de um pano de crochet”. 

não sou distraída. sou apenas de atenção concentrada em detalhes.

agradeço contacto de quem me possa indicar onde posso adquirir um. também aceito patos. agradecida.

cisne negro


o meu local preferido para ouvir música é o carro, quando vou sozinha. é o único sítio onde canto alto e faço segundas vozes, como se não houvesse amanhã. como é uma atividade sem testemunhas, posso dizer que canto muito bem sem medo de ser contrariada (invoco a refutabilidade empírica a meu favor).

nos últimos tempos tenho levado a passear estes senhores. e esta música faz-me dor de barriga. há músicas que fazem alergia, dores de cabeça, dores musculares, enjoos, que dão energia, alegria... as minhas preferidas são as que fazem dor de barriga.

Queque




2 chávenas de farinha
1 chávena de açucar
125 gr de chocolate em pó
50 gr manteiga
2 ovos
1 chávena de leite
1 colher de chá de fermento

juntar tudo e bater até ficar homogéneo.
colocar numas formas de papel de aspeto irresistivelmente giro (tão giro, que mereçam deixar de ser queques, para serem chamados de muffins)
colocar no forno a 180º, previamente aquecidos.
deixar 20 minutos.

menos é menos


Tinha uma reunião de trabalho e a franja incomodava-me. Num ato de auto-suficiência resolvi dar um jeitinho. A tesoura estava pouco afiada e o resultado ficou irregular. Resolvi acertar. Piorou a situação. A franja restante já não era muita. Tentei só mais uma vez. Fiquei em modo prisioneiro de Auschwitz. Resolvi usar laca e gel (produtos que já não usava desde os 13 anos) e o que resultou desta utilização estaria na moda nos anos 90. Em 2011 eu era apenas uma parola saída de um campo de concentração. Lavei o cabelo e fui apanhar o metro. Esqueci-me do sucedido e interiorizei que o importante é sermos bonitos por dentro.
Antes de sair olhei-me de alto a baixo e perguntei à cara-metade se estava bem. Ele responde, sorrindo: “Sim, estás... com personalidade”. Devia ter desconfiado deste sorriso. Foi o primeiro de muitos durante o dia.
No metro comecei a notar que as pessoas me olhavam e sorriam. Um rapaz (giro) sentou-me à minha frente e sorria-me, enquanto me olhava fixamente nos olhos. Comecei a sentir-me a Miss Vilar do Pinheiro (e a preparar mentalmente o discurso de agradecimento quando ganhasse o título mundial de Miss Freguesia).
 O metro entrou num túnel escuro e vi-me refletida nas janelas e percebi. As pessoas não se riam para mim, mas de mim e o gajo que estava à minha frente (e que afinal não era assim tão giro) não me olhava nos olhos. Olhava fixamente a minha irregularequaseinexistente franja. Para remediar a situação pensei pegar no telemóvel, simular uma chamada e falar inglês (britânico) muito alto; a um inglês é desculpável qualquer coisa (como por exemplo, meias e sandálias no mesmo pé, ao mesmo tempo).
Fui à reunião e no fim lembrei-me desta passagem, de um livro que ando a ler de um autor que me faz rir (aqui):
"Naquele momento, o lado menos negativo da minha situação era o facto de não estar diante de chamas vermelhas, contendo no interior um taumaturgo reanimado de um sono de séculos por feiticeiros com intenções nada benéficas. Não sabia se fogo com propriedades sobrenaturais conseguiria queimar-me, mas não fazia questão de descobrir. Passando ao inevitável lado negativo, despertei no chão de uma divisão nada arejada, tendo à minha frente três dos referidos feiticeiros, olhando-me com desprezo. E um deles apontava-me uma arma. Porque até os lados negativos podiam ter lados negativos."

in "O fim chega numa manhã de nevoeiro", de Renato Carreira (mais autor aqui)




A importância do desastre da minha franja só podia ser anulado por três situações: se nesse mesmo dia me anunciassem que tinha uma doença terminal, se me inscrevesse num workshop de escrita criativa ou se me destacassem para trabalhar no Pólo Sul – lá teria de andar de gorro.

O tempo pergunta ao tempo...

Recentemente, estando eu em fervilhante atividade bloguística e internética, resolvi fazer um estrugido (ou refogado, para quem preferir) para cozinhar arroz (obrigada diuska). E lembrei-me de um filme que se chamava O Feitiço do Tempo, em que um desgraçado acordava no mesmo dia, vezes sem conta, vivendo sucessivamente os mesmos acontecimentos. 


Peguei nas cebolas, cortei aos pedaços, coloquei na panela e juntei azeite. Liguei o fogão e fui para o PC. Quando regressei ao fogão (loooongos minutos mais tarde) os pedaços de cebola estavam carbonizados. Repeti o processo: peguei nas cebolas, cortei aos pedaços, coloquei na panela e juntei azeite. Liguei o fogão e fui para o PC. Quando regressei ao fogão... o mesmo! 


Da primeira vez não estranhei, mas à quarta vez, e depois de esgotar o stock de cebolas, achei por bem parar o processo e deixar-me estar sossegada no PC. Estranho! Detesto estes fenómenos paranormais. Não os consigo controlar, ainda.


os meus animais preferidos são o ligre e o cabeça-de-cão-cadela-mosca

Biocentrismo del sueño

Quando conheci as fotografias da Carla Fernandez Andrade, fiquei logo com vontade de partilhar com o mundo as suas imagens; e quando fui espreitar o seu site, fui engolida pela magia que todas elas contêm.

Ainda que inicialmente estivesse deliciada a clicar de foto em foto em busca das fotos certas para mostrar o seu trabalho, percebi que seria uma tarefa inglória, visto que escolher umas seria sacrificar outras; e tirá-las da sua série seria assassinar um conjunto poético visual. Por esta razão, optei por escolher apenas uma (em baixo da série Biocentrismo del sueño). Não porque é melhor do que as outras, mas porque me parecia fazer mais sentido. Podia ter sido outra qualquer. Teria cumprido a mesma função. Acho que o resto ficará ao critério de quem tiver vontade de ver o restante.

Pareceu-me também que colocar texto à frente, atrás, ao lado ou por cima desta imagem não a deixaria respirar livremente como ela precisa. Preferi deixá-la viver sozinha no fundo branco da cidade perdida, durantes uns tempos.

Finalmente, e ainda que não ache que fosse necessário justificar tecnicamente o seu trabalho, já que creio que se percebe logo que é para ser sentido e não explicado, o trabalho desta jovem fotógrafa galega é feito em analógico, tornando o "erro" fotográfico - bem presente, por exemplo, na série Primary Mist Landscapes - uma parte interessante do processo, que o torna ainda mais orgânico (à falta de um melhor adjetivo) e nos ajuda a testemunhar em primeira pessoa a "Alegoría del engaño sensorial" e a "Metáfora de fragilidad", que ela própria menciona.

Parece que a qualquer momento vamos acordar do transe e as imagens que tínhamos à nossa frente desaparecerão, com uma brisa de vento.







CarlaFernandezAndrade (click)

Desporto sensível


Nunca pensei dizer isto, mas ando viciada num desporto. Não é bem um desporto, é um videojogo. Na verdade de desporto e videojogo tem apenas o nome. São uma banda e chamam-se Sensible Soccers. (Estou safa de me tornar numa atleta de alta competição).

Na sua página do Facebook descrevem-se como um quarteto que pratica um futebol muito sensível, muito meigo e com muito carinho. os sensible soccers praticam um futebol lindo (…). E sinceramente, como analfabeta no desporto rei – embora me assuma como adepta de um clube, para ter o meu lugar no mundo e porque a minha cor preferida é o verde – esta descrição foi suficiente para me encantar. As palavras têm um poder terrível. E já se sabe como são estas coisas, do encantamento à audição vai só um passinho e quando se dá conta é difícil "deslargar" e anda-se de cabeça perdida e nas nuvens. Sendo um dos músicos (Né Santos) elemento dos, infelizmente, desaparecidos The Portugals, o que aí vinha só podia augurar coisas boas. Mas até podia não ser. Mas foi.

Gostei mesmo do que ouvi e já tenho a cassete no repeat.

Têm um ótimo trabalho, têm uma excelente imagem e até o nome é bom. E depois, num mundo onde o futebol é rei, digo, sem ter medo de me arrepender, que os Sensible Soccers serão the next big thing, no que toca a música. Aqui e além (sim, porque ainda por cima são portugueses e se calhar alguns deles até do mesmo clube que eu).

Resta-me esperar um concerto ao vivo.




à minha amiga fernanda

o segredo (parte II)


A passear pelo ouvido afinando dei com um vídeo. Lembrei-me que há muitos anos, uma pessoa que conheço (e que por respeito não nomearei, mas que de agora em diante chamarei João), me disse que andava a preparar uma performance envolvendo uma bicicleta. A dita performance seria uma surpresa, por isso andava a mantê-la no segredo dos deuses.

Uma performance numa bicicleta. Fiquei curiosa.

O João tem bicicleta, gosta de andar de bicicleta e usa-a muitas vezes como meio de transporte para curtas distâncias, mas tendo em conta a pessoa que é (homem sério, com uma certa idade e pouco dado a maluqueiras - acho) também eu andei a anos a pensar que raio de performance andava a preparar. Confesso que a primeira coisa que imaginei foi que um dia, num ato de rebeldia, João se passearia nu pela cidade a dar ao pedal, enchendo de orgulho a esposa, os filhos e os netos.

Não quis insistir… muito. Mas andava a roer-me. Recentemente perguntei ao João: “João, para quando a tua grande performance?”. João, que há-de rondar os setenta e muitos, sofre de artrose, colesterol alto e outras maleitas próprias da idade, disse-me: “Está para breve”. Tendo em conta a avançada idade de João, tinha algum receio que lhe desse o badagaio e levasse para a cova o segredo (deitando por terra a possibilidade de outro excelente best-seller). Insisti um bocadinho. O risco de poder ser assombrada por João, se isso acontecesse, era real. Se me dissesse bem, se não, não voltava a tocar no assunto.

E lá me disse que um dos seus sonhos é aliar duas das coisas que mais gosta de fazer na vida: tocar o seu instrumento musical, enquanto anda de bicicleta. Achei maravilhoso. Prefiro vê-lo a andar de bicicleta com o seu instrumento musical, do que vê-lo a pedalar com o seu instrumento ao léu.
 
E depois vi este vídeo e lembrei-me desta história. Lembro-me muitas vezes desta história. Faz-me sorrir. Quando vir o João vou-lhe mostrar este vídeo (produzido por Ninian Doff: “Golden Tree” por Martin Brooks)




E depois o ouvido afinando falava também dos Norton. Uma banda portuguesa. Boa música. E um clip com bicicletas.


O ouvido afinado dá-me muitas bicicletas. E dá-me mais coisas.

ladrão de chiclas

Por falar em chuva, Gore-Tex e Canadá (click), voltei a um clássico (click).



Nada como um conjunto bem amanhado de criaturas infelizes, sem futuro profissional à vista, vindo do seio de famílias desfuncionais para alegrar a chegada do outono e do frio e da chuva. Falo de The Gum Thief de Douglas Coupland (click), que consegue embrulhar os universos mais desesperançados e cinzentos, em ironia e sentido de humor.

Há sempre muito conforto em ler autores “favoritos”. É quase como tomar café com um amigo de longa data: é confortável, familiar e o tempo passa sempre a correr. Nunca aborrece. Mesmo quando achamos que não estamos in the mood.



“Maybe memories are like karaoke - where you realize up on the stage, with all those lyrics scrawling across the screen's bottom, and with everybody clapping at you, that you didn't know even half the lyrics to your all-time favourite song. Only afterwards, when someone else is up on stage humiliating themselves amid the clapping and laughing, do you realize that what you liked most about your favourite song was precisely your ignorance of its full meaning - and you read more into it than maybe existed in the first place. I think it's better to not know the lyrics to your life.” 

Douglas Coupland, The Gum Thief


E depois até descobri que se a meio me aborrecer, posso passar à versão animada do livro, feita por um estúdio também ele canadiano que se chama crush (click).
Muitos escritores sairiam a ganhar com esta solução animada.

Aqui fica um vídeo. Aqui (click) há mais! 





emigrantite

emigrante
(latim emigrans, -antis)
adj. 2 g. s. 2 g.

Que ou quem emigra ou sai da sua região ou do seu país para se estabelecer noutro.




as manhãs são mais bonitas e tranquilas quando acordo por cá. apetece-me sempre fazer mil coisas ao mesmo tempo e acabo, quase sempre, por passar a manhã à mesa a rir-me de coisas parvas, que tenho vergonha de contar aqui.

tenho um amigo que tem vergonha de comprar papel higiénico. e preservativos. isso não me faz rir, mas não percebo.

muitas vezes rio-me do que não percebo.

por cá os passeios, mesmo quando estreitos, têm o tamanho à minha medida.
é bom saber que nunca estou grande demais, nem pequena demais. tenho o tamanho certo, apesar de achar que fico mais pequena do que o costume. não sei se encolho com a humidade marítima. não tenho a certeza.




os sinos tocam mais baixinho aqui. juro.
nem sabia que existiam sinos nas igrejas até me mudar de cidade.



o almoço vem de bicicleta. do mar e sempre sempre bem-disposto, mesmo sabendo que vai ser comido. 

hoje lembrei-me que pior do que uma máquina de roubar a metafísica aos homens, seria uma máquina que roubar a capacidade de nos rirmos de nós próprios. ou de nos rirmos e ponto final. espero que ninguém a invente.





às vezes encontro o meu melhor amigo de infância. tem um gato que se chama tarzan. dos 6 até aos 18 anos via-o todos os dias (ao amigo, não ao tarzan). agora vejo-o, mais ou menos, de 3 em 3 anos. não me chateia.




gosto de ruas que vão dar ao mar. existe sítio melhor para ir dar?
quando morei numa cidade grande, tinha sempre a sensação que as grandes avenidas iam dar ao mar. mas não iam, porque não havia por lá uma pinga de água. que nome se dá ao contrário de oásis?

esta é a rua mais bonita da cidade. só hoje me apercebi. mesmo sem os efeitos na fotografia. e vai dar ao mar.


gosto de acordar uma das minhas melhores amigas da adolescência. chama-se L. tem mau feitio de manhã e gosta muito da praia. gosto de ir com ela passear ao pé do mar com o seu cão. o silva.

o silva era suposto ser o noivo da minha mosca, mas a verdade é que nunca se conheceram (que me lembre) e é  verdade que ando a prometer a minha cadela a mais cães de amigos. acho que são todos de cidades diferentes, por isso é possível que nunca me apanhem na falsa promessa.


desde que tenho 14 anos vou com a L. para a praia. 
passamos 83% do tempo a falar de rapazes e os outros 17 a olhar para eles. mesmo agora que temos 18 continuamos a fazê-lo.

 
 
gosto da sensação de liberdade que o mar me dá. há 15 anos que sou emigrante. em terras diferentes. todas elas sem mar e com uma geografia claustrofóbica.

não voltava a viver na minha terra, para poder regressar a ela sempre enquanto oásis. ser emigrante é ter sempre um oásis à espera. sempre. já me disseram que esse oásis é, muitas vezes uma miragem, mas eu não me importo, porque um amigo me disse o seguinte um dia: há tantas coisas bonitas no mundo e há por aí tanta gente infeliz.