Poesia poética de poeta
by Palaroide
Não gosto de poesia. Quer dizer, gosto de ideias poéticas, imagens poéticas, objetos poéticos e até textos poéticos, mas poesia assim como a escrevem os poetas: com linhas curtas e estrofes e, às vezes, rimas não gosto. Não foi por falta de esforço. Não é como as anchovas e as favas, que comi uma vez e nunca mais lhes meti o dente. Não. À poesia voltei inúmeras vezes, fazendo um esforço, tentanto entrar em "modo poético": esvaziando a mente, abrindo a alma e toda a tralha poética que ajuda a gostar de poesia. Fiquei por dois poetas de quem gostei de forma moderada, ao ponto de comprar os livros (ou ofereceram-me?) e consultá-los um número limitado de vezes, que talvez se conte pelos dedos das mãos.
E depois uma fatalidade aconteceu-me. Um dos meus melhores amigos virou poeta e escreveu um livro. O destino prega-nos partidas. Já sei que tendo eu esta deficiência poética seria fácil dizer-lhe: "Desculpa, melhor amigo, mas não gosto de poesia, por isso não vou ler o teu livro". Era fácil. Mas a amizade obriga-nos a fazer coisas por amor e li o livro. E até gostei (note-se o até). Em particular de dois poemas. E depois o amigo fez um blogue (este) onde o visito quase diariamente. E quando dei por mim emocionava-me (sem lágrimas, mas com sorrisos) com o que ele escrevia. E pronto, tive de assumir que afinal gostava de poesia. Pelo menos de uma grande parte da dele.
Escreve coisas que te fazem dizer "uau", como esta:
Não caber não é mais
que uma forma deselegante
que uma forma deselegante
elefantina de morrer.
Na verdade, comecei por escrever este post unicamente para dizer que ele tem uma exposição de fotografias de sapatos perdidos e poesia em Tondela (Viseu). Quem passar por lá que a visite. Era para dizer só isso, mas depois... a amizade tem destas coisas.
Antes poesia, que anchovas e favas.
